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Postado em 30/07/2011

Tour du Mont Blanc - Texto escrito por Igor Gnomo - Imagens do Facebook de Leo Casado

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Chegamos a Saisis no sábado a tarde e fomos logo pegar os kit’s, e depois de assistir uma etapa do tour onde os irmãos Schleck  judiaram do contador na última subida da etapa, fomos para a reunião de instrução da prova.

A reunião tinha um tom assustador, a organização queria deixar bem claro que os 330 km de prova não seriam moleza. Foi bem frisado a importância do compromisso dos atletas com a segurança e das dificuldades que todos iriam encontrar pelo caminho, além dos 8.000 metros de ascensão acumulados,  a previsão do tempo não era boa para o dia do evento, era prevista muita chuva e temperatura máxima de 5° C em alguns dos pontos de passagens dos ciclistas. Os organizadores deixam bem clara a isenção de responsabilidade deles em relação à integridade física e dos equipamentos dos participantes e mais uma vez lembraram que o transito estaria aberto e que cada um deveria seguir as regras de transito e portar um telefone celular para em caso de emergência entrar em contato com organização e com os agentes de saúde local.

Às cinco da manhã, sem atraso, os duzentos ciclistas saíram no escuro para encarar, sem dúvidas,  um dos maiores desafio de suas vidas. Dentre eles se encontravam três Brasileiros:  os Paraibanos Michel Henrique e Leonardo Casado e a Paulista Claudia Tollendal, desejei-lhes boa sorte e segui o pelotão ladeira abaixo em direção a Megeve,  cidade que antevia a primeira subida.

Por volta dos 50 km de prova, na subida do Col des Montets,  encontrei  os “meninos”.  Leo  estava com problemas no câmbio e ao parar para prestar assistência Michel logo fez questão de afirmar: “Gnomo, essa é a prova. P#%&@ de L’etape!! Iisso é que é bom, ritmo tranqüilo, coração a 80%... ninguém tem pressa”.  Resolvemos o problema de Léo e bola pra frente.  Claudia estava mais a frente, mas não necessitava de apoio.

Não demorou muito para percebermos que previsão do tempo por aqui funciona, e lá estava a chuva prevista, aproveitamos a passagem de um trem que parou os meninos para entregarmos mais um casaco e abastecê-los de água, já estávamos entrando na Suíça e eles iriam iniciar a subida do Col de Champex,  uma ladeira super íngreme por onde passa a volta da Suíça. As mensagem de força escritas no chão demonstrava tão recente passagem, em alguns momentos os marcos as margens da estrada estreita em meio a enormes pinheiros informavam os 26% de inclinação, ainda assim os dois preferiam subir à descer as “pirambeiras” onde o frio era insuportável e cada pingo de chuva era uma pedrada no rosto.

Vencido Champex, mais uma descida vertiginosa com desfiladeiros bem pertinho das curvas em forma de cotovelos que davam medo de serem contornadas até de dentro do carro. Lá embaixo começava os 40 km da subida do Col Du Grand St. Bernard,  além de extensão, trechos de inclinações altíssimas e contra-ventos completavam o cenário de terror dessa ladeira.  Ao chegarem ao topo os dois correram para dentro do carro para se aquecer e trocar de roupa. E com todo aquele frio não posso esquecer  das palavras contraditórias de Michel: “Meu irmão, a porta do inferno é aqui!”, nesse momento a temperatura se  aproximava a zero, não hesitei e fui buscar um chá quente pra aquecer aquelas duas almas que se tremiam e batiam queixo ao falar e ainda iam ter que encarar outra descida duríssima, mas já estávamos quase na metade do percurso.

Em La salle já em território Italiano os dois aproveitaram o terreno plano e o “calor” de 12°C para puxar o pelotão, o ritmo aumentou e Michel a frente do grupo imprimia velocidade próxima aos  40km/h, e olha que já passávamos dos 200km de prova. Subindo o Petit St. Bernard Léo furou um pneu, e durante a troca a reclamação era o fortíssimo vento contra e, é claro,  o frio que a cada metro de escalada aumentava.

No Col du Petit St. Bernard,  providenciei um chocolate quente para os dois, ao chegar ao restaurante Léo correu em direção ao banheiro para colocar as mãos de molho na água quente, e ao tentar tirar a luva com a boca, mordeu o dedo. A reclamação de ambos era que não conseguiam sentir os dedos e que os espasmos por causa do frio a todo o momento quase os derrubavam. Embalei as mãos dos dois em papel filme torci as luvas mais uma vez e empurrei-os ladeira abaixo.

Sai em busca da ciclista paulista, Claudia, para ver se precisava de alguma coisa, mas depois de dirigir por muito tempo cheguei a conclusão que ela só podia ter se perdido, no caminho cruzei com algumas ambulâncias, mas não desisti da minha busca indo até a linha de chegada, onde me informaram que nenhuma mulher havia chegado. Na volta, quando encontrei os meninos, perguntei sobre Claudia e eles informaram que haviam visto a bike dela em um carro. Mais tarde soubemos que por não sentir os dedos e sem conseguir frear ela teve que se lançar ao chão para não cair no precipício, e foi resgatada pelas ambulâncias que haviamos visto.

Depois do ocorrido só reencontrei os meninos ao pé da ultima subida, os dois já não sentiam mais frio, nem as pernas eu acho, pois o ritmo dos dois era alucinante subindo o Col de Saisis de coroão e passando os demais competidores que por ali se encontravam. Eu não acreditava em tamanha disposição e conhecendo Michel, não conseguia entender como a aquela altura os dois ainda continuavam juntos. Ofereci comida, mas os dois só tinham olhos para a chegada, até se depararem com um marco que informa 7 km para o topo, “ não pode ser, meu garmim tá marcando 330” disse Michel, isso derrubou o ritmo dos dois e faltando apenas 1 km para a chegada o inacreditável aconteceu:

-Gnomo pára o carro!
-Mas falta só um km!

Parei e tive que fazer um sanduiche para cada um, ainda “mataram” um pacote de biscoito recheado e duas cocas colas. Aproveitei esse tempo para oferecer-lhes roupas secas, mas o frio só incomodava a mim, mas como os dois estavam molhados e fazia 3°C e eles não estavam com frio? Bem ao que parecia eles estavam acostumados e voltaram às bikes para o finalzinho.

Parei o carro para acompanhá-los na chegada e correndo atrás dessa dupla fantástica pude acompanhar o nascimento de mais dois Heróis Paraibanos. Os dois primeiros Brasileiros a completar esse desafio, chegaram de mãos dadas as 22:00 horas depois de muito esforço, Léo não resistiu e foi as lagrimas e minha única reação foi abraçá-los.

Dos 200 ciclistas que largaram apenas 87 completaram a prova,  os meninos foram os 35° e 36° com o mesmo tempo 17:00:34, mas mesmo depois do tempo regulamentar de prova ouvíamos do quarto do hotel as escassas palmas que comprovavam que ali vinha chegando mais um bravo guerreiro para completar o trajeto.

 


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